sexta-feira, 25 de dezembro de 2009
Memória alguma persiste como o olfacto. Mesmo que titubeantes, tacteando na incerteza da identificação imediata, as reminiscências impõem-se em presença de uma nota, uma fragrância que em nós ficou impressa. A evocação de um momento, de igual forma, perde acuidade num vácuo de associação olfactiva.
Sextas feiras cheiram a madeira encerada e janelas abertas de par em par. Detergentes a circular através de mãos agéis, que assumem como missão exfoliar cada partícula de matéria, cada poro de superfície, deixando um halo de ordem à sua passagem. Como se cada objecto adquirisse redobrado vigor na sua quietude inanimada.
Como cadernos em branco. Folheados, acariciados por mãos que não podem senão adorar o imaculado das promessas que permite.
Sextas feiras eram dias de me esconder no quarto partilhado, longe da brigada anti-germes. Esquecida pelos demais, podia enfim lambuzar-me com páginas e páginas, mundos paralelos aos quais acedia através de portais de edredon e almofadas.
Transporto em mim a memória de tantos dias. De todos os dias. Vivo o hoje com a imensidão do ontem.
Sextas feiras cheiram a madeira encerada e janelas abertas de par em par. Detergentes a circular através de mãos agéis, que assumem como missão exfoliar cada partícula de matéria, cada poro de superfície, deixando um halo de ordem à sua passagem. Como se cada objecto adquirisse redobrado vigor na sua quietude inanimada.
Como cadernos em branco. Folheados, acariciados por mãos que não podem senão adorar o imaculado das promessas que permite.
Sextas feiras eram dias de me esconder no quarto partilhado, longe da brigada anti-germes. Esquecida pelos demais, podia enfim lambuzar-me com páginas e páginas, mundos paralelos aos quais acedia através de portais de edredon e almofadas.
Transporto em mim a memória de tantos dias. De todos os dias. Vivo o hoje com a imensidão do ontem.
segunda-feira, 31 de agosto de 2009
quarta-feira, 26 de agosto de 2009
5./1979
o junco entrançado das cadeiras conhece a memória do corpo
este demorado tempo de ausência...sobre a cama de areia
onde o amor se desenvolve o cheiro a poejo dos lençóis
a noite vem do esquecimento da voz
persigo-te com os dedos pelo vácuo
encontro o rosto amarelecido nas fotografias...despojos
do atormentado sono...lateja-me na boca um coração de papel
dissolve-se um desastre no escuro interior dos objectos
eis a última visão do deserto..um mar triste
uma canção de abandono sobre a boca..o sonho
invadindo a vida que me enche de sede
mas vai chegar o inferno
o corpo afrouxar-se-á como o fazem algumas flores
ao cair da noite dobram-se para o fulcro morno da seiva
e cismam um sonho de ave que só a elas pertence
são horas de ter medo meu amor
cansadas horas quebradas nas mãos...horas de alucinação
estes dias abertos à corrosão do ciúme...estas janelas
derramando sémen à velocidade do surdo grito...são horas
horas de fingir que nos amámos
lentamente os dedos aperfeiçoaram a arte de pararem
sussurrantes sobre o corpo..não a deslizarem
não a percorerem o espaço da veloz insónia
as mãos redescobriram o silêncio inesgotável da escrita
praticam esse ofício muito antigo
de na imobilidade da fala tudo desejarem
Al berto
este demorado tempo de ausência...sobre a cama de areia
onde o amor se desenvolve o cheiro a poejo dos lençóis
a noite vem do esquecimento da voz
persigo-te com os dedos pelo vácuo
encontro o rosto amarelecido nas fotografias...despojos
do atormentado sono...lateja-me na boca um coração de papel
dissolve-se um desastre no escuro interior dos objectos
eis a última visão do deserto..um mar triste
uma canção de abandono sobre a boca..o sonho
invadindo a vida que me enche de sede
mas vai chegar o inferno
o corpo afrouxar-se-á como o fazem algumas flores
ao cair da noite dobram-se para o fulcro morno da seiva
e cismam um sonho de ave que só a elas pertence
são horas de ter medo meu amor
cansadas horas quebradas nas mãos...horas de alucinação
estes dias abertos à corrosão do ciúme...estas janelas
derramando sémen à velocidade do surdo grito...são horas
horas de fingir que nos amámos
lentamente os dedos aperfeiçoaram a arte de pararem
sussurrantes sobre o corpo..não a deslizarem
não a percorerem o espaço da veloz insónia
as mãos redescobriram o silêncio inesgotável da escrita
praticam esse ofício muito antigo
de na imobilidade da fala tudo desejarem
Al berto
sábado, 20 de junho de 2009
hourglass body
A luz furtivamente escoada percorria a marmórea face adormecida em jogos de luz e sombra sobre o perfil de ampulheta, emanando um ronronar sibilante de sono, compassado numa harmonia de vales e promontórios.
O rosa nacarado que emoldura as frinchas da janela difunde-se languidamente sobre a estival pacatez estéril.
Lá fora a fruta fermentada no interior da derme ressequida consome-se já sobre si mesma numa desidratação muda, num valsa de gordos insectos que esperam a fatal queda para se poderem banquetear com o frutado esqueleto.
Poderia percorrê-la com a ponta dos dedos.
Mas jamais poderia capturar a fugaz perenidade que dela evolava.
O rosa nacarado que emoldura as frinchas da janela difunde-se languidamente sobre a estival pacatez estéril.
Lá fora a fruta fermentada no interior da derme ressequida consome-se já sobre si mesma numa desidratação muda, num valsa de gordos insectos que esperam a fatal queda para se poderem banquetear com o frutado esqueleto.
Poderia percorrê-la com a ponta dos dedos.
Mas jamais poderia capturar a fugaz perenidade que dela evolava.
terça-feira, 2 de junho de 2009
mr. prince charming and (un)happy endings


Era uma vez....num reino muito muito pouco longínquo...uma lenda centenária que teimavam em impingir às meninas pequenas a par das colheradas de sopa ("só mais esta, vá lá, abre lá a boquinha!!ai tão bom!"). Pois bem, duas décadas volvidas, a repetição da lenda provoca-me o mesmo esgar que a colherada da sopa empurrada à traição garganta abaixo, enquanto os olhos se arregalavam perante as braçadas do Huckleberry no Mississipi...Decidi denominar esta deambulação reflexiva de
Princípes Encantados e Finais Felizes: o Mito Urbano
Qualquer simples almoço entre amigas facilmente fornece matéria prima para uma saga mais longa e aterrorizadora que o Alien vs Predator. Romances que se transformam em enredos dignos de Júlio Verne, a levar a um novo nível o conceito de ficção científica (bem mais profundo que vinte mil léguas)
Conspiração societal, afirmo eu!
De que outra forma manteríamos a indústria dos trapinhos a funcionar em toda a sua glória, na alucinante substituição de sapatos bicudos por redondos e jeans boot cut por slim fit na transição de uma colecção para a outra? Quem justificaria um tão maciço investimento em novas variedades de gelados que amalgamam chocolate com pedaços de brownie e litradas do mais delicado fondant?Quem pousaria o cabelo amaciado por um brushing na cadeira barcelona de um psicólogo? Se desacreditarmos este mito...que acontecerá às Meg Ryans e Jeniffer Anistons deste mundo, incapazes de continuar a perpetrar falaciosas verões idílicas de uma realidade que nunca existiu?Os desgostos amorosos das donzelas providenciam o óleo de toda esta engrenagem!
Amor à primeira vista através de um aquário, no veludo cadente da voz da Des'ree, transposição das diferenças inarticuláveis, beijos capazes de nos transportarem para o interior de uma bola de sabão...oh well...experimentem ter de baixar o tampo da sanita, trocar o passeio de mãos dadas ao crepúsculo pela beira mar por uma caracolada a ver a bola com os compinchas...e vejamos se ainda conseguem cantar com a Pocahontas as cores da montanha e pintar com quantas cores o vento tem..
Pois é, depois de incentivada por uma amiga a escrever a minha versao do "Sexo e a Cidade" - com menos sexo, menos cidade, menos designer clothes, menos 15 anos e mais mundo rural...aqui está a minha visão dos princípes encantados e dos finais felizes: acordem e esfreguem os olhinhos! Tal como o Sebastião jamais retornará enroupado em nevoeiro, os sapos serão sempre sapos, coaxem com voz mais ou menos melodiosa, com perfume mais ou menos inebriante..e as excepções...só confirmam a regra ;)
Ainda assim..guardo em mim a certeza de que vezes sem fim os meus pés voltarão a não tocar o chão. Que todo e qualquer argumento se desvanecerá em poalha e dará lugar a assomos de sorrisos, dedos enovelados e corpos enredados em danças de sombras chinesas.
Porque na minha essência serei sempre uma Carrie, apaixonada pelo acto de me apaixonar...and i'll keep going down to strawberry fields forever :)


quinta-feira, 21 de maio de 2009

Eu nunca fui pequena.
Mesmo escondida por detrás de uma franja com remoinho. Enormes olhos inquisitivos. Boca a desenhar um traço fechado. Ocasionalmente esboçando um beicinho.
Mesmo quando me barricava atrás de caixas de madeira com a E. e o J. e nos imaginávamos aos comandos de um buliçoso café. Mesmo quando eu e a D. bebíamos água em taças de plástico cor de rosa, à imagem do que víramos n' "A Bela e o Monstro". Mesmo naquele mundo de fingir, de película de néon encantado.
Eu nunca soube ser sem peso. Nunca aprendi os segredos sussurrados da Mary Poppins e da sombrinha levitante. Sempre cambaleei no bailado de pequenos fantasmas, feitos de resquícios de acontecimentos. Pézinho de trapezista a pézinho de trapezista, no limbo entre a doçura oniríca e a realidade sob a forma de polaroids.
E permaneço aqui. No sítio onde tudo tem um peso e uma medida. Aninhada sobre mim mesma. Dançando na cadência ondulante de fantasmas. Ondulando como uma seara em gradações technicolour.
Até ao dia em que me levares a dançar sob um céu de folhas púrpura.
Mesmo escondida por detrás de uma franja com remoinho. Enormes olhos inquisitivos. Boca a desenhar um traço fechado. Ocasionalmente esboçando um beicinho.
Mesmo quando me barricava atrás de caixas de madeira com a E. e o J. e nos imaginávamos aos comandos de um buliçoso café. Mesmo quando eu e a D. bebíamos água em taças de plástico cor de rosa, à imagem do que víramos n' "A Bela e o Monstro". Mesmo naquele mundo de fingir, de película de néon encantado.
Eu nunca soube ser sem peso. Nunca aprendi os segredos sussurrados da Mary Poppins e da sombrinha levitante. Sempre cambaleei no bailado de pequenos fantasmas, feitos de resquícios de acontecimentos. Pézinho de trapezista a pézinho de trapezista, no limbo entre a doçura oniríca e a realidade sob a forma de polaroids.
E permaneço aqui. No sítio onde tudo tem um peso e uma medida. Aninhada sobre mim mesma. Dançando na cadência ondulante de fantasmas. Ondulando como uma seara em gradações technicolour.
Até ao dia em que me levares a dançar sob um céu de folhas púrpura.
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