segunda-feira, 31 de agosto de 2009

quarta-feira, 26 de agosto de 2009

5./1979

o junco entrançado das cadeiras conhece a memória do corpo
este demorado tempo de ausência...sobre a cama de areia
onde o amor se desenvolve o cheiro a poejo dos lençóis

a noite vem do esquecimento da voz
persigo-te com os dedos pelo vácuo
encontro o rosto amarelecido nas fotografias...despojos
do atormentado sono...lateja-me na boca um coração de papel
dissolve-se um desastre no escuro interior dos objectos

eis a última visão do deserto..um mar triste
uma canção de abandono sobre a boca..o sonho
invadindo a vida que me enche de sede
mas vai chegar o inferno
o corpo afrouxar-se-á como o fazem algumas flores
ao cair da noite dobram-se para o fulcro morno da seiva
e cismam um sonho de ave que só a elas pertence

são horas de ter medo meu amor
cansadas horas quebradas nas mãos...horas de alucinação
estes dias abertos à corrosão do ciúme...estas janelas
derramando sémen à velocidade do surdo grito...são horas
horas de fingir que nos amámos

lentamente os dedos aperfeiçoaram a arte de pararem
sussurrantes sobre o corpo..não a deslizarem
não a percorerem o espaço da veloz insónia
as mãos redescobriram o silêncio inesgotável da escrita
praticam esse ofício muito antigo
de na imobilidade da fala tudo desejarem

Al berto

sábado, 20 de junho de 2009

hourglass body

A luz furtivamente escoada percorria a marmórea face adormecida em jogos de luz e sombra sobre o perfil de ampulheta, emanando um ronronar sibilante de sono, compassado numa harmonia de vales e promontórios.
O rosa nacarado que emoldura as frinchas da janela difunde-se languidamente sobre a estival pacatez estéril.
Lá fora a fruta fermentada no interior da derme ressequida consome-se já sobre si mesma numa desidratação muda, num valsa de gordos insectos que esperam a fatal queda para se poderem banquetear com o frutado esqueleto.

Poderia percorrê-la com a ponta dos dedos.
Mas jamais poderia capturar a fugaz perenidade que dela evolava.

terça-feira, 2 de junho de 2009

mr. prince charming and (un)happy endings



Era uma vez....num reino muito muito pouco longínquo...uma lenda centenária que teimavam em impingir às meninas pequenas a par das colheradas de sopa ("só mais esta, vá lá, abre lá a boquinha!!ai tão bom!"). Pois bem, duas décadas volvidas, a repetição da lenda provoca-me o mesmo esgar que a colherada da sopa empurrada à traição garganta abaixo, enquanto os olhos se arregalavam perante as braçadas do Huckleberry no Mississipi...
Decidi denominar esta deambulação reflexiva de

Princípes Encantados e Finais Felizes: o Mito Urbano

Qualquer simples almoço entre amigas facilmente fornece matéria prima para uma saga mais longa e aterrorizadora que o Alien vs Predator. Romances que se transformam em enredos dignos de Júlio Verne, a levar a um novo nível o conceito de ficção científica (bem mais profundo que vinte mil léguas)
Conspiração societal, afirmo eu!
De que outra forma manteríamos a indústria dos trapinhos a funcionar em toda a sua glória, na alucinante substituição de sapatos bicudos por redondos e jeans boot cut por slim fit na transição de uma colecção para a outra? Quem justificaria um tão maciço investimento em novas variedades de gelados que amalgamam chocolate com pedaços de brownie e litradas do mais delicado fondant?Quem pousaria o cabelo amaciado por um brushing na cadeira barcelona de um psicólogo? Se desacreditarmos este mito...que acontecerá às Meg Ryans e Jeniffer Anistons deste mundo, incapazes de continuar a perpetrar falaciosas verões idílicas de uma realidade que nunca existiu?Os desgostos amorosos das donzelas providenciam o óleo de toda esta engrenagem!
Amor à primeira vista através de um aquário, no veludo cadente da voz da Des'ree, transposição das diferenças inarticuláveis, beijos capazes de nos transportarem para o interior de uma bola de sabão...oh well...experimentem ter de baixar o tampo da sanita, trocar o passeio de mãos dadas ao crepúsculo pela beira mar por uma caracolada a ver a bola com os compinchas...e vejamos se ainda conseguem cantar com a Pocahontas as cores da montanha e pintar com quantas cores o vento tem..
Pois é, depois de incentivada por uma amiga a escrever a minha versao do "Sexo e a Cidade" - com menos sexo, menos cidade, menos designer clothes, menos 15 anos e mais mundo rural...aqui está a minha visão dos princípes encantados e dos finais felizes: acordem e esfreguem os olhinhos! Tal como o Sebastião jamais retornará enroupado em nevoeiro, os sapos serão sempre sapos, coaxem com voz mais ou menos melodiosa, com perfume mais ou menos inebriante..e as excepções...só confirmam a regra ;)
Ainda assim..guardo em mim a certeza de que vezes sem fim os meus pés voltarão a não tocar o chão. Que todo e qualquer argumento se desvanecerá em poalha e dará lugar a assomos de sorrisos, dedos enovelados e corpos enredados em danças de sombras chinesas.
Porque na minha essência serei sempre uma Carrie, apaixonada pelo acto de me apaixonar...and i'll keep going down to strawberry fields forever :)


quinta-feira, 21 de maio de 2009


Eu nunca fui pequena.
Mesmo escondida por detrás de uma franja com remoinho. Enormes olhos inquisitivos. Boca a desenhar um traço fechado. Ocasionalmente esboçando um beicinho.
Mesmo quando me barricava atrás de caixas de madeira com a E. e o J. e nos imaginávamos aos comandos de um buliçoso café. Mesmo quando eu e a D. bebíamos água em taças de plástico cor de rosa, à imagem do que víramos n' "A Bela e o Monstro". Mesmo naquele mundo de fingir, de película de néon encantado.

Eu nunca soube ser sem peso. Nunca aprendi os segredos sussurrados da Mary Poppins e da sombrinha levitante. Sempre cambaleei no bailado de pequenos fantasmas, feitos de resquícios de acontecimentos. Pézinho de trapezista a pézinho de trapezista, no limbo entre a doçura oniríca e a realidade sob a forma de polaroids.
E permaneço aqui. No sítio onde tudo tem um peso e uma medida. Aninhada sobre mim mesma. Dançando na cadência ondulante de fantasmas. Ondulando como uma seara em gradações technicolour.
Até ao dia em que me levares a dançar sob um céu de folhas púrpura.

quarta-feira, 13 de maio de 2009

Respirei, pausadamente, silenciando o silvo de locomotiva que de dentro me consumia o habitual sorriso com que brindo o mundo exterior.
Sem elmo ou escudo que me ocultem, subo a escadaria cujo brilho se perdeu na poalha de outros tempos, amarelecido que está o antigo fulgor pela mediocridade académica a que hoje serve de pórtico. Uma faculdade inteira que quase cabia numa caixa de sótão.
De soslaio, espreito o reflexo de mim, apenas para confrontar no meu próprio olhar a dúvida escorrendo em laivos de ansiedade.
Como voltar a percorrer estes corredores sem o antigo conforto de saber o que encontraria em cada pedaço de estuque impiedosamente esventrado, as rubricas furtivamente esgaratujadas nos tampos de mesa dos anfiteatros abandonados à sonolência estéril de fim de tarde, agitada pelo revoar de poeiras nos raios de sol que, insidiosamente, vinham furtar pensamentos, enquanto a boca do docente continuava a articular sons há muito emudecidos no olhar vítreo da plateia.

Como vejo agora quão simples é. Porque jamais voltará a ser a antiga morada.
Ilusoriamente assumindo a forma e localização que anteriormente me havia abrigado, pouco permanece da vida que a insuflava.
Um templo consubstanciado naqueles que agora se enfileiram todos os dias na dispersão de direcções e não confluem já para definir a personagem colectiva que em tempos haviam delineado, numa espiral de forças centrípetas.

Ali já nada tem o gosto de colher e comer.

segunda-feira, 20 de abril de 2009

Domingos são prenúncios agoirentos de segundas feiras, o dia que na minha agenda nunca é bem vindo (agora lembrei-me da horrível cançoneta que acompanhava "A minha agenda", aquele resquício dos anos 80 que a televisão publicitava por alturas do advento, logo ao lado da Nancy patinadora e do castelo da playmobil).
Toda as criaturas com mais de 65 anos acham que podem sair à rua, aos pares, dentro da abóbora que só toma aquela forma ao domingo, e circular a 35 km/h em zonas de limite 50.
Não é que tenham que fazer aos dias de semana - embora ninguém o julgasse pela hora a que arrancam o esqueleto da cama - mas aos domingos é que é dia de sair.

Refeita do tormento viário que constituiu a travessia até ao berço bocageano, lá cirandei por ruas e vielas, da Praça da Misericórdia ao Miradouro, ziguezagueando através de soalheiras vozes de crianças, gatos estirados na preguiça da digestão, quintais com laranjeiras deixados à sua própria sorte e beirais de janelas com velhotas com cabelos de neve.

E só conseguia lembrar-me da gaveta de guloseimas que povoou o meu imaginário durante toda a minha infância. Vivia (a gaveta) na cozinha azul e branca da minha avó paterna, poetisa, fadista e contadora de anedotas ordinárias, que me levava ao miradouro a ver figuras nas nuvens e me falava do James Dean e da Elizabeth Taylor e de coisas mil. A frescura estival das paredes acobertava aquela gaveta mais preciosa que o baú do barba azul.
Os meus olhos cresciam ao adivinhar o que poderia conter, de cada vez que chegava a sua casa.
Subia a correr as escadas em que se perfilavam mil cores e aromas das flores que as suas mãos sabiam fazer sorrir.

Domingo. Preguiça soalheira e despreocupada. Gaveta das guloseimas. Avó Margarete.

And the beauty of memories blooms over the uglyness of sunday afternoon.